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  • A ESCALADA DA INSIGNIFICÂNCIA

    Muito tenho refletido ultimamente sobre o que o filósofo Cornélius Castoríades chama de "Ascensão da Insignificância", ou "escalada da insignificância" no dizer de outros. Que a nossa sociedade nunca primou pelas soluções inteligentes todos nós sabemos - basta observar os descaminhos a que levamos o mundo em que vivemos; mas a bestialidade que tem tomado conta das relações, de decisões políticas, de prioridades da grande imprensa "diplomada" e de grandes corporações é estarrecedora.

    Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto) tinha uma frase que bem define essa situação: "O mundo vai acabar sendo dominado pelos idiotas, pela simples razão de que eles são em maior número".

    A filósofa Olgária Matos (USP), afirma: “A sociedade do espetáculo é a da visibilidade total. Em decorrência do vazio espiritual da sociedade contemporânea, coisas sem nenhuma relevância tomam um espaço enorme. O que é a fama? Na verdade, é a infâmia”.

    A celebridade, no dizer de Emily Dickinson, é a “punição do mérito e o castigo do talento”. Salvo um eremita que viva na caverna de uma reserva ecológica, não há brasileiro que desconheça Daniella Cicarelli e Cia. Surge então a inevitável pergunta: o que fez Daniella para que todos a conheçam?

    Para o jornalista Sérgio Augusto a mídia é a maior responsável pela “jeca vassalagem” a celebridades. “Jornais ‘sérios’ sucumbiram a isso. São todos vassalos da indústria cultural, que ganha muito dinheiro com as tais celebridades”, observa Augusto. Espiando algumas notícias da Quarta-Feira de Cinzas, o jornalista listou fatos fundamentais para os destinos da humanidade. “Deparei com a guerra de lingeries travada entre Ivete Sangalo, Alinne Rosa, Claudia Leitte e Preta Gil, no carnaval de Salvador. A pauta é incrível. Quem é Tatiana Pagung, uma pessoa ou uma bunda? O que faz ela no resto do ano? Carla Perez e Kelly Key ressurgiram das sombras e para lá devem voltar, com Márcia Imperator, outra que, quando alcançar a idade da Fernanda Montenegro, há muito terá deixado de ser uma celebridade. Não foi só a mediocridade que venceu, a cafajestice, também.”

    O conceito de fama hoje em voga remonta às décadas de 50 e 60 do século XX. Até a aparição da chamada cultura pop, havia, para além do heroísmo, as figuras ilustres, sempre ligadas a alguma atividade. “Era o grande político, o grande intelectual, o grande artista. Você ainda tinha a idéia do grande. E grandes são aqueles sem os quais o mundo seria incompleto”, esclarece Olgária. Imagine, portanto, o que seria do mundo sem Luciana Gimenez, Adriane Galisteu e Kleber Bamban. “O problema dessa banalização é que tudo acaba se equivalendo, você não tem mais critério”, diz Olgária. O desejo de sair do anonimato, mesmo que por uma razão deletéria, explica a sujeição a cenas vexaminosas em reality shows como Big Brother ou, no já extinto No Limite. “Aí se mistura a busca pela fama com a busca pela recompensa material. O grande ideal do mundo contemporâneo é uma palavra de ordem vazia: ganhar dinheiro.” O voyeurismo do Big Brother ou o da Cicarelli no YouTube é só o grotesco.

    Saio da banalidade da minha vida e vou ver a banalidade da vida do outro. Querer viver por transferência faz parte de um processo de perda do significado das coisas e de incapacidade de imaginação. É a incapacidade de imaginar a própria vida.

    Quando a imaginação desvanece e os sonhos passam a ser construídos pelas imagens que a mídia fornece, o homem se esvazia, sem se dar conta disso. A tevê, com modelos acabados de famílias e vidas, é pródiga nisso. Quando pensamos no papel que vem sendo exercido pela tevê, vemos que há um genocídio cultural no Brasil.

    É fato que telenovelas e modelos midiáticos existem mundo afora. O problema é quando esse passa a ser o padrão de organização da sociedade. “Pensar a democracia no Brasil requer refletir, em particular, acerca da esfera pública cultural”, escreve Olgária em Discretas Esperanças.

    Não se trata de condenar a cultura de massa porque ela é de massa. Preocupante é que todas as produções culturais passem a ser impregnadas pelos valores da mídia e da indústria do entretenimento e só exista isso como horizonte cultural. Dilui-se assim a formação da sensibilidade, do gosto e do pensamento. Não por acaso, nesse mar de imagens, gentes e fatos irrelevantes, desaparece no horizonte a prática da leitura. Tudo conspira contra a leitura, que é lenta, concentrada. Ela contraria a aceleração do tempo das mídias, da fama curta, ela é a longo prazo. A educação está invadida pela temporalidade do mercado financeiro.

    Se a paciência para a leitura tradicional escasseia, o mesmo não se pode dizer da leitura das pílulas internáuticas, em orkuts e sites que existem as pampas. É na internet, não por acaso, que se cruzam o desejo pela fama e o voyeurismo tolo.
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